sábado, 17 de setembro de 2011

Poucas postagens, muita leitura

Só bobear para perceber que ficamos muito tempo sem postar algo. A ausência de novidades por aqui não significa abandono completo ou desleixo. Leio muitos blogs alheios e estou testando inúmeras redes sociais.

Ando pensando em reformulação para o blog e em como usar estas ferramentas de forma mais eficiente e consequentemente ter mais seguidores e mais gente com os mesmos interesses para compartilhar idéias sobre leitura, educação, entre outros.

Estou felizinha da vida porque adquiri um iPad e estou descobrindo novas formas de leitura. Ou seriam as mesmas formas em outras plataformas? Minha mãe curtiu porque segundo ela eu não vou mais encher meu criado mudo de livros, como de habito, rsrs. Talvez.

Comprei o iPad por duas razoes principais: 1) uma viagem que farei e não quero correr o risco de ficar incomunicavel; 2) tenho o costume de comprar coisas e usa-las ate o osso, o que significa pouca aquisição de tecnologia e não quis ficar por fora das coisas que estão sendo feitas quanto ao e-book.

Uma das desvantagens esta sendo a falta de acentos. Se o iPad sugere a grafia, ok. Caso contrário, ainda não descobri como coloca-los manualmente. Deve haver como, então vou assinando o B.O.

Por enquanto, os livros que baixei pelo Projeto Gutemberg, com a possibidade de marcar onde paramos na leitura, de clicar na palavra e ter seu significado e de clicar novamente e poder escrever uma nota sobre a palavra ou o trecho selecionado, simplesmente me deixaram mais alegre que criança com doce.

Sinto falta de mais publicações em portugues e de livros técnicos da área de letras.

E isso. Um viva a todas as formas de leitura.
Em breve posto mais sobre as descobertas recentes.
Obs: Depois ponho os acentos, rsrs.

Abraço
Tânia

segunda-feira, 11 de julho de 2011

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Quando procura amor na internet (Marcelo Pires) > adorável visão masculina

 

Este texto foi publicado na revista Claudia, de junho de 2009, a propósito do dia dos namorados. Um texto delicioso sobre as buscas da vida. 
Enjoy

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Língua Portuguesa #Flagra2 - e tirinhas Níquel Náusea

Olá pessoal,

Vou trazer no blog os flagras que eu for encontrando das diferenças entre a língua que escrevemos e a língua que falamos, ou, entre a língua que usamos no Brasil e a que insistimos em seguir: português de Portugal (ou europeu).


A tirinha do Níquel Náusea, a propósito da ambiguidade interpretativa de "sítio com vacas'', diz: "duro vai ser tirar elas de lá".

Uma das primeiras regras para o uso de pronomes pessoais diz que pronomes pessoais do caso reto não podem ser complemento do verbo. Eis que temos "tirar elas", quando deveríamos usar, de acordo com a regra, "tirá-las". Fato é que este uso é mais do que recorrente no Brasil. Apuremos os ouvidos.


A segunda tirinha, também do Níquel Náusea, traz uma brincadeira com o cachorro "pastor alemão", que "fala" alemão. 

Obs: Foram publicadas na Folha de S. Paulo. Não anotei a data.

Até o próximo flagra.
Abç
Tânia

domingo, 3 de julho de 2011

Marcos Bagno e PC Siqueira


Esta postagem é nada a ver. Apenas uma constatação. 
Marcos Bagno é a cara do PC Siqueira ou o PC Siqueira é a cara do Marcos Bagno?
Abç
Tânia


sábado, 2 de julho de 2011

Textos que discutem linguagem

Gosto dos textos que discutem linguagem. Neste, João Ubaldo Ribeiro discute algumas expressões que escuta, em comparação com aquelas que não escutamos mais. De ouvido apurado, ele faz estes flagras e nós podemos constatar (ao apurarmos nossos ouvidos) que é verdade.

Espero que curtam.

Abç e bom fim de semana

Tânia 

***

O caderninho rabugento, JOÃO UBALDO RIBEIRO

O sujeito vai ficando velho e vai se transmutando num reacionário cada vez mais enfezado, de maus bofes e convívio desagradável. Triste fado de que alguns afortunados escapam, mas em que a maioria, suspeito eu, acaba caindo, pouco disfarçando a antiguíssima e cruel verdade de que o verdadeiro mal da nova geração é que não pertencemos mais a ela. É o que penso aqui, olhando este caderninho, onde faço anotações que se assemelham um pouco às mensagens do Missão Impossível.


Não se autodestroem, mas quase todas se tornam indecifráveis uns dez minutos depois de escritas. A exceção, agora descubro, são as rabugentas.
Num ato falho embaraçoso, as notas rabugentas estão grafadas com clareza, geralmente em letra de forma. Não dá para disfarçar a preferência do autor.
É mesmo atanazar o juízo do semelhante com reclamações, queixas e comentários azedos a qualquer pretexto, ou mesmo sem pretexto.
Não, sem pretexto também não. Os pretextos abundam, feliz ou infelizmente.


Como se soubesse em que estou me ocupando agora e quisesse me provocar, a repórter do noticiário de televisão a que no momento assisto diz que não sei o que lá acontece "peluma razão muito simples" . Essa — como direi? — preposição não foi criada por ela, porque já a ouvi antes e a ouço com cada vez maior frequência. Dizem que os neologismos surgem espontaneamente, assim que há necessidade. Devemos, por conseguinte, ter necessidade, pelum desses volteios do destino, de usar uma preposição variável, haverá de ser mais um passo para a nossa crescente integração no concerto das nações desenvolvidas. Pelum, peluma, peluns, pelumas — estou começando até a gostar, pode ser que dê mais expressividade à língua.


Escuto agora um senhor afirmando que o presidente de uma comissão do Congresso não vai tomar nenhuma medida concreta (as abstratas, tudo bem) no momento, porque prefere aguardar maior unanimidade entre os membros da dita comissão. Mal tenho tempo para me indagar como é que a unanimidade pode ficar maior ou menor, quando se passa a uma entrevista, acho que com um membro da mencionada comissão, na qual ele afirma que "a comissão, ela não tem como objetivo" etc.


Aí se trata do famoso sujeito duplo, que se estabeleceu de vez entre nós e daqui a pouco vão dizer que quem não fala assim está falando errado. Por alguma razão não explicada, de uns anos para cá vem se tornando cada vez mais raro ouvir alguém usar a terceira pessoa de qualquer verbo sem dobrar o sujeito.


Se fosse numa língua sem flexões verbais, até que dava para entender, mas a nossa é muito bem servida delas. Não adianta resistir, só se fala assim.


Despeço-me do televisor, não sem antes ouvir outro repórter dizer que uma inauguração ocorreu "há exatos vinte anos". Fico imaginando vinte anos rigorosamente exatos, cada ano mais exato que outro, não admitindo nem ano bissexto. Outra vez inovamos e, agora que penso mais detidamente no assunto, parece que o Brasil vai de fato distinguir-se por tornar variáveis as categorias invariáveis. Não ficamos nas preposições, fomos igualmente aos advérbios. As conjunções e interjeições variáveis não devem tardar, se é que não estão já por aí. Talvez não, porque devem andar ocupadas com a movimentação a que têm sido sujeitas nos últimos tempos, a ponto de eu acreditar que algumas delas ficaram estressadas, como não pode deixar de ser no caso do divórcio rumoroso entre "daqui" e "de", bem como no contubérnio de "acontecer" com "de". Ah, não souberam? Pois é o que lhes digo — e já está tudo escancarado para qualquer um ver. Ninguém mais fala "daqui a dois dias", só fala "daqui dois dias". Outro dia ouvi alguém dizer "pra mim fazer daqui dois dias" e fiquei pensando no inglês dos apaches dos filmes de caubói antigos. Quanto ao caso de "acontecer" com "de", já descarou há muito tempo e também logo deve tornar-se moda. O primeiro pode e devia prescindir da segunda, mas, sabem como são essas coisas, pintou um clima e aí ficou essa sem-vergonhice.


Não acontece mais ninguém passar sem a preposição. Aconteceu de eu estar escrevendo, aconteceu de ela ver e assim por diante.


Creio também que já chegou a hora de preparar o necrológio de "cujo", esse desconhecido. Há alguns marginais que ainda recorrem a ele, mas estão cada vez mais minoritários e acredito que dentro em breve quem usá-lo vai ser vaiado ou denunciado como elitista ou perguntado como vão as coisas na Ucrânia. Já está ficando estranho alguém, na conversa comum, dizer "a moça cujo pai eu vi ontem". O certo vai acabar sendo "a moça que eu vi o pai ontem". Tenho certeza de que isso se aproxima do léxico e da sintaxe dos chimpanzés, mas não disponho de provas e não quero melindrar os chimpanzés.


E, finalmente, porque o espaço está acabando e chega de rabugice num domingo só, merece pelo menos menção honrosa o fato de que dizer "este ano", "esta semana" está ficando a cada dia mais incomum. Agora, sabe Deus por que artes da burrice e da ignorância, só se diz "neste ano" e "nesta semana". Daqui a pouco, vai se dizer "neste hoje eu ainda te falo" ou "isto foi nesta ontem".


Mas não liguem, é tudo caturrice mesmo, a língua é viva e muda o tempo todo. Se as línguas não mudassem, estaríamos falando latim e, portanto, não há nada de preocupante nesses e em outros exemplos que me recheiam cá o caderninho. Mas, como esta coluna não é interativa e vocês não podem senão lê-la (aliás, podem mais, mas prefiro não ser informado do quê), fico com a última palavra. Já que mencionei o latim, menciono os romanos, que sabiam das coisas e diziam "ubicumque lingua romana, ibi Roma" — onde quer que esteja a língua romana, aí estará Roma. Fico meio assim, porque isto, aplicado a nós, significa que estamos na cucuia.

Fonte: O GLOBO e GAZETA DO POVO, maio de 2009.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Tradução do português falado em Portugal

Este texto circula na internet há algum tempo. Já o recebi por e-mail e já o vi em vários lugares. 
Vale a pena checar as diferenças semântico-lexicais entre o português brasileiro e o português europeu. 
Não sei a autoria, a fonte, nada. Se alguém souber... me avise.
Grande abraço
Tânia


Ainda no aeroporto, pediram uma água fresca lisa (gelada e sem gás), pois tinham comido no avião uma punheta (bacalhau cru desfiado, servido como tira-gosto).
Após a água, nosso amigo tomou uma bica (cafezinho).
Foi ao salva-vidas (sanitário) e disse-nos que o autoclismo (descarga) funcionou com dificuldade.
Na rua, viu os almeidas (garis) recolhendo monstros (entulhos).
Perguntou-nos como estava nosso puto (adolescente) e se as canalhas (várias crianças) de meus irmãos estavam bem.
Se a SIDA (AIDS) estava sendo contida nas campanhas com o uso do durex (camisinha, pois a fita durex lá se chama fita-cola).
Desejou passar numa drogaria e ao chegar queria comprar alfinetes e pregadeiras (broxes em Portugal significa sexo oral realizado pela mulher no homem).
Na farmácia compraram também um penso (curativo), porque algo sentia no pé e, porque a mulher estava com história (menstruada), um penso higiênico (absorvente íntimo), pois já estava sujando a cueca - ou cuequinha (calcinha de mulher).
Aproveitou e adquiriu um adesivo (esparadrapo) para proteger o pé do sapato que estava apertando.
No bar perguntou se havia muito paneleiro (homossexual, "bicha") que não honrava a pila (pênis) e fufa (lésbica) com cara de gajo (rapaz).
Tomou algumas cervejas de pressão (chopinhos) e pagou a conta ao empregado de mesa (garçom).
Pela manhã, na praia, admirou-se com a pronta ação do banheiro (salva-vida) ao retirar do mar uma rapariga (moça) que se afogava.
Ficou impressionado com passageiros que viajavam dependurados no autocarro (ônibus).
Achou um giro (legal, muito boa) a Praia de Porto de Galinhas.
A todo momento passava a mão no saco (bolsa a tiracolo de homem e de mulher) preocupado com pivetes.
Achou uma ponta (excitação sexual) os biquínis sumários existentes.
Comprou carne de borrego (carneiro novo) no talho (açougue) e levou para guardar no nosso frigorífico (geladeira é um termo completamente desconhecido lá).
Gostou do nosso andar (apartamento) por ser muito ventilado no sexto piso (andar).
Estranhou o ardina (jornaleiro) vendendo na véspera o jornal do dia seguinte (digamos que essa mania brasileira é, realmente, muito estranha!).
Se a propaganda da Caixa Econômica Federal fosse feita em Portugal seria:
"vem para a boceta (caixa) você também. Vem!". Essa palavra se usa com freqüência nos meios de comunicação, e o palavrão correspondente é crica ou cona.
Na farmácia, é comum se perguntar se vais "tomar a pica no cu", pois isso significa aplicar uma "injeção nas nádegas". Só se configura o palavrão se se disser "o olho do...".
Na padaria disse não gostar de "entrar no rabo da bicha para pegar o cacete" (entrar no fim da fila para pegar o pãozinho).
Falamos de tudo, desde a atuação dos estomatologistas (dentistas) brasileiros residentes em Portugal até sobre as propinas (taxas legais e honestas que os estudantes pagam nas universidades).
Estes são alguns casos interessantes.
Mesmo a "lógica portuguesa" é diferente da brasileira. E o que é isso, afinal?
Acontece que o povo português tem a estranha mania de levar tudo ao pé da letra. Tudo lá tem de ser bem claro, ao contrário de nós, brasileiros, que carregamos em nossas frases, em nossa maneira de expressão, uma certa comunicação implícita, que só nós, os PRÓPRIOS brasileiros, entendemos.
Quem deu um exemplo claro disso foi o escritor Mário Prata, que viveu algum tempo em Portugal. Em seu "Dicionário de Português de Portugal", ele dá um exemplo interessante disso: nós, brasileiros, quando queremos tomar um cafezinho num bar aqui no Brasil, entramos no bar e perguntamos ao atendente: "tem café?".
Se tiver, ele às vezes nem responde. Já vai logo servindo, pois já sabe que queremos café.
Em Portugal, no entanto, isso não acontece. Lá, se você perguntar ao atendente se tem café, ele, se tiver, somente vai responder que sim.
Não serve o café, pois, afinal, pela lógica dele, você só perguntou se tem café. Se você quiser tomar o café, tem de pedir a ele que sirva.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Músicas da minha infância - Bruce Springsteen - Dancing in the Dark

 
 Bruce Springsteen - Dancing in the Dark
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I get up in the evening
and I ain't got nothing to say
I come home in the morning
I go to bed feeling the same way
I ain't nothing but tired
Man I'm just tired and bored with myself
Hey there baby, I could use just a little help

You can't start a fire
You can't start a fire without a spark
This gun's for hire
even if we're just dancing in the dark

Message keeps getting clearer
radio's on and I'm moving 'round the place
I check my look in the mirror
I wanna change my clothes, my hair, my face
Man I ain't getting nowhere
I'm just living in a dump like this
There's something happening somewhere
baby I just know that there is

You can't start a fire
you can't start a fire without a spark
This gun's for hire
even if we're just dancing in the dark

You sit around getting older
there's a joke here somewhere and it's on me
I'll shake this world off my shoulders
come on baby this laugh's on me

Stay on the streets of this town
and they'll be carving you up alright
They say you gotta stay hungry
hey baby I'm just about starving tonight
I'm dying for some action
I'm sick of sitting 'round here trying to write this book
I need a love reaction
come on now baby gimme just one look

You can't start a fire sitting 'round crying over a broken heart
This gun's for hire
Even if we're just dancing in the dark
You can't start a fire worrying about your little world falling apart
This gun's for hire
Even if we're just dancing in the dark
Even if we're just dancing in the dark
Even if we're just dancing in the dark
Even if we're just dancing in the dark
Hey baby

*****
Não sei vocês, mas eu, quando criança, ouvia todos os vinis dos meus pais, de cabo a rabo. Conheço muito bem as músicas desse álbum do Bruce Springsteen. Quando eu tinha meus seis aninhos já curtia todo esse som, que pensando bem era adolescente e adulto. 

Hoje, na sessão ''to remember'', tentando relaxar de um retorno para casa confuso, penso na letra... nunca a tinha lido de verdade. E a letra não me decepcionou nem um pouco. Na verdade, vem a calhar com meus desejos de mudança. Estou precisando de uma mudança das boas, uma faxina geral, um deixa disso, um chacolhar das porcarias que me contaminaram.   

They say you gotta stay hungry
hey baby I'm just about starving tonight
I'm dying for some action 

I'll shake this world off my shoulders

Maybe dancing in the dark is beggining...
Kisses and hugs, I'm international tonight. 
See ya
Tânia

Tradução

Dançando No Escuro

Eu levanto ao anoitecer
E não tenho nada a dizer.
Eu chego em casa de manhã,
Vou para a cama me sentindo do mesmo jeito.
Eu estou apenas cansado
Cara, estou apenas cansado e aborrecido comigo mesmo.
Ei, aí baby, eu poderia aproveitar uma ajudazinha.

Você não pode começar um incêndio,
Você não pode começar um incêndio sem uma faísca.
Este pistoleiro é de aluguel,
Mesmo se estivermos apenas dançando no escuro.

A mensagem continua a ficar mais clara,
O rádio está ligado e estou me movendo pela casa.
Eu confiro minha aparência no espelho,
Eu quero mudar minhas roupas, meu cabelo, meu rosto.
Cara, eu não estou chegando a lugar nenhum,
apenas vivendo num monte de lixo como este.
Tem alguma coisa acontecendo em algum lugar,
Baby, eu simplesmente sei que tem...

Você não pode começar um incêndio...

Você senta por aí, ficando mais velho,
Tem uma piada aqui em algum lugar e é comigo.
Eu vou sacudir este mundo de cima dos meus ombros,
Vamos, baby, a risada é por minha conta.

Fique nas ruas desta cidade
E elas estarão entalhando você, tudo bem.
Eles dizem que você precisa continuar faminto,
Ei, baby, estou quase morrendo de fome esta noite.
Estou ansioso por um pouco de ação,
Estou enjoado de sentar por aí, tentando escrever
Este livro
Eu preciso de uma reação amorosa,
Vamos lá, agora, baby, me dê apenas uma olhada.

Você não pode começar um incêndio sentado por aí
chorando por causa de um coração quebrado.
Este pistoleiro é de aluguel,
Mesmo se estivermos apenas dançando no escuro.
Você não pode começar um incêndio
atormentando-se por causa do seu mundinho estar desabando.
Este pistoleiro é de aluguel,
Mesmo se estivermos apenas dançando no escuro...
Mesmo se estivermos apenas dançando no escuro




Linguagem do morro - João Nogueira

Esta é a outra música que conheci quando fui à Rádio UEM.
Letra bastante interessante.
Espero que gostem.
Abç
Tânia



Linguagem do morro - João Nogueira

Tudo lá no morro é diferente
Daquela gente não se pode duvidar
Começando pelo samba quente
Que até um inocente
Sabe o que é sambar
Outro fato muito importante
E também interessante
É a linguagem de lá
Baile lá no morro é fandango
Nome de carro é carango
Discussão é bafafá
Briga de uns e outros
Dizem que é burburim
Velório no morro é gurufim
Erro lá no morro chamam de vacilação
Grupo do cachorro em dinheiro é um cão
Papagaio é rádio

Grinfa é mulher
Nome de otário é Zé Mané (2x)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Salto sem rede - Carlos Heitor Cony

Parece que na net não se pode fazer uma crítica sem levar uma saraivada de ofensas. Coni tem razão. Em muitos espaços na net a linguagem é infantojuvenil, no mínimo.

De qualquer forma, muito interessante a visão que ele apresenta.
Espero que gostem do texto.
Abç
Tânia 



Rio de Janeiro – Irritado com os meus comentários sobre a linguagem infantojuvenil que ainda predomina na mídia eletrônica, um sujeito me desancou num e-mail em que me aconselha a jogar dominó e buraco, deixando o universo virtual para o povo eleito no qual ele se inclui.


Não tenho nada contra o dominó e o buraco, mas não sou vidrado nesses tipos de passatempo. Tampouco me emociono com o jogo de paciência que vejo muito cara fazendo nas salas de espera dos aeroportos, abrindo seus notebooks para que todos o admirem na função. Continuo achando que a informática vive sua pré-história, uma era jurássica sem articulação e, muitas vezes, sem qualquer outro sentido.


De qualquer forma, ela é irreversível e fatalmente encontrará sua linguagem, não será um mero serviço, mas um fator de enriquecimento humano e espiritual. Será útil para encomendar pizzas (que nos chegarão lerdas e frias), mas sua transcendência superará a atual contingência.


Outro dia, uma moça perguntou, por e-mail, se eu já tinha namorada virtual. Deixou no ar uma insinuação, quase se oferecendo, e eu quase aceitei. O universo virtual é mais concreto do que se supõe. Ele existe ao redor de nós, como um monstro ou um anjo, dependendo do lado pelo qual o abordamos.


O homem moderno foi condenado a ser manipulado pelo excesso de comunicação, a oferta maior do que a procura. O mundo virtual é um salto sem rede no espaço. Uma bobeira pode terminar em tragédia. Na semana passada, um homem de 23 anos invadiu um colégio em Realengo, aqui no Rio, matou mais de dez estudantes e feriu outros tantos. Era um introvertido, um psicopata que passava a maior parte de seu tempo tripulando uma nave absurda no espaço virtual. Um espaço de fantasia que não o fez mais feliz nem mais homem.

 fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/conteudo.phtml?tl=1&id=1114562&tit=Salto-sem-rede-

domingo, 26 de junho de 2011

Palavra Cantada - Sandra Peres e Luiz Tatit

Quando fomos na rádio discutir o livro do MEC, o jornalista nos mostrou duas músicas. Eu não as conhecia.  Uma era essa:

Gramática - Palavra Cantada

Composição: Sandra Peres e Luiz Tatit
O substantivo
É o substituto do conteúdo

O adjetivo
É a nossa impressão sobre quase tudo

O diminutivo
É o que aperta o mundo
E deixa miúdo

O imperativo
É o que aperta os outros e deixa mudo

Um homem de letras
Dizendo idéias
Sempre se inflama

Um homem de idéias
Nem usa letras
Faz ideograma

Se altera as letras
E esconde o nome
Faz anagrama

Mas se mostro o nome
Com poucas letras
É um telegrama

Nosso verbo ser
É uma identidade
Mas sem projeto

E se temos verbo
Com objeto
É bem mais direto

No entanto falta
Ter um sujeito
Pra ter afeto

Mas se é um sujeito
Que se sujeita
Ainda é objeto

Todo barbarismo
É o português
Que se repeliu

O neologismo
É uma palavra
Que não se ouviu

Já o idiotismo
É tudo que a língua
Não traduziu

Mas tem idiotismo
Também na fala
De um imbecil


Gostei.
Abç
Ótimo domingo

sábado, 25 de junho de 2011

WILLIAM WORDSWORTH - em Precious


Gostei desse poema no prefácio do livro Precious.
Espero que gostem.
Abç
Tânia



Se sois um daqueles cujo coração manteve puras

As formas santas da imaginação juvenil,

Estranho! estais avisado; e sabei, que o orgulho,

Ainda que disfarçado de sua própria majestade,

É pequenez; que quem sente desprezo

Por qualquer coisa viva, tem faculdades

Que jamais usou; aquele pensamento com ele

Está em sua infância. O homem, cujo olhar

está sempre em si mesmo, olha de fato para uma,

A menor das obras da natureza, uma que pode levar

O homem sábio àquele escárnio que a sabedoria considera

Ilegal, sempre. Ah, sede sábio!

Sabei que o verdadeiro conhecimento leva ao amor...

WILLIAM WORDSWORTH

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Leitura de feriado - 'Precious' na sala de espera do aeroporto




Ontem, dia 23 de junho, feriadão, enquanto esperava no aeroporto, não resisti à livraria. Acabei comprando dois livros que viraram filme. O primeiro que me chamou atenção na gôndola foi Preciosa, de Sapphire. A segunda aquisição foi O Leitor, de Bernhard Schlink. Assisti ao filme do segundo, ainda quero conferir o filme do primeiro.

Como no site do submarino não consta a resenha do livro Preciosahttp://www.submarino.com.br/produto/1/21785563/preciosa, transcrevo aqui o texto da capa.

"Adolescente do Harlem Claireece Precious Jones é obesa, analfabeta e está grávida pela segunda vez do próprio pai. Vítima de constantes abusos físicos e psicológicos por parte da mãe, alimenta a esperança de melhorar sua vida e a da filha. O encontro com uma professora batalhadora a apresentará a um mundo novo, no qual poderá expressar seus sentimentos e recuperar a voz e a dignidade. Uma história de luta, coragem e redenção". 

Agora reproduzo um trecho, chamemos de teaser, para provocá-lo a ler o livro. Como é uma cena de sala me aula, me flagrei dando risada na sala de espera. A maluca!

"A gente não tem lugar fixo na sala do Sr. Wicher, cada um pode sentar onde quiser. Eu sento na mesma carteira todo dia, no fundo, na última fila, perto da porta. Mesmo sabendo que a porta de trás fica trancada. Não falo nada de nada. Ele não fala comigo, agora. No primeiro dia ele falou:
- Turma, abram o livro na página 122, por favor.
Não me mexi. Ele disse:
-Srta. Jones, eu disse para abrir o livro na página 122.
E eu disse: 
- Filho da puta, não sô surda!
A turma toda caiu na gargalhada. ele ficou vermelho. Bateu a mão com força no livro e disse:
- Tente ter um pouco de disciplina.
Ele é m branco nanico e magricela, deve ter tipo 1,60m. Um branquelo xexelento, como diria minha mãe. Olhei para ele e disse:
- Eu também sei bater. Cê quer bater? - Aí peguei meu livro e bati com força. A turma riu mais um pouco. 
Ele disse: 
- Srta. Jnes, eu agradeceria se saísse da sala AGORA. 
E eu disse: 
- Não vô pra porra de lugar nenhum até a campanhia tocar. Vim aqui pra aprender matemática e você vai me ensinar. - Ele parecia uma cachorra que acabou de ser atropelada por um trem. Não sabia o que fazer. Ele tentou recuperar a pose, bancar o maneiro, disse: 
- Bom, se quer aprender, acalme-se.
Falei: 
- Eu tô calma. 
Ele disse:
- Se quer aprender, cale a boca e abra o livro. 
O rosto dele tava vermelho, ele tava tremendo. Eu dei pra trás. Ganhei briga. Acho.
Eu não queria prejudicar ele nem deixar ele sem graça daquele jeito, sae. Mas não podia deixar ele saber, que a página 122 era igual à página 152, 22, 3, 6, 5 - todas as página era igual pra mim". 

*****

Existe bastante para ser comentado. Gostei muito da tradução de Alves Calado, que recriou perfeitamente em português, a linguagem da personagem analfabeta. 

A personagem principal, gorda, negra e analfabeta, tem lá seus preconceitos também contra brancos, chicanos, lésbicas, entre outros. Mas quando você analisa todo o contexto de exclusão, as condições de humilhação e abuso sexual em casa, você vê que é apenas uma criança grande ou uma criança crescida. 

Aprecio livros e filmes que contam histórias de escolas, alunos e situações em sala de aula. Se estudar para alguns é algo chato, para outros torna-se um verdadeiro desafio. 

Conflito em sala de aula sempre existe. O interessante nesse trecho é que o professor pode interpretar a falta de ação de Precious como preguiça. Mas logo sabemos que ela está tentando se proteger, uma vez que não consegue reconhecer os números e as letras. Só achei um tanto incoerente porque ela diz recorrentemente que é boa em matemática e depois uma professora (na tentativa de trazê-la de volta para escola) afirma que o professor de matemática também falou que ela é boa em matemática. Como, se não é capaz de reconhecer os números?     

Apesar desse pequeno estranhamento, estou na metade do livro, de narrativa rápida e envolvente. Sei que a professora Blue Rain ajudará Precious e externar seus sentimentos e assim provocará uma mudança na vida dessa personagem. Estou gostando bastante e na expectativa do desenrolar da história.

Recomendo.

******

 
Obs: Adorei o filme O Leitor. Já postei sobre ele há algum tempo: http://leitorvelhonavegador.blogspot.com/2009/12/filme-o-leitor.html Creio que depois de ler o livro, vai me dar algum comichão de comentar algo mais.
Keep blogging, keep reading.
Grande abraço
Tânia        
     


   

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O verbo For - João Ubaldo Ribeiro

A nossa língua é uma questão de paixão, apesar disso em muitos momentos ela deve ser cobrada e sistematizada. O vestibular é um deles.  
Diga o que você achou da conjugação do verbo For.
Mais um texto muito legal do João Ubaldo Ribeiro.
Grande abraço
Tânia

O verbo For - João Ubaldo Ribeiro

Vestibular de verdade era no meu tempo. Já estou chegando, ou já cheguei, à altura da vida em que tudo de bom era no meu tempo; meu e dos outros coroas. Acho inadmissível e mesmo chocante (no sentido antigo) um coroa não ser reacionário. Somos uma força histórica de grande valor. Se não agíssemos com o vigor necessário — evidentemente o condizente com a nossa condição provecta —, tudo sairia fora de controle, mais do que já está. O vestibular, é claro, jamais voltará ao que era outrora e talvez até desapareça, mas julgo necessário falar do antigo às novas gerações e lembrá-lo às minhas coevas (ao dicionário outra vez; domingo, dia de exercício).

O vestibular de Direito a que me submeti, na velha Faculdade de Direito da Bahia, tinha só quatro matérias: português, latim, francês ou inglês e sociologia, sendo que esta não constava dos currículos do curso secundário e a gente tinha que se virar por fora. Nada de cruzinhas, múltipla escolha ou matérias que não interessassem diretamente à carreira. Tudo escrito tão ruybarbosianamente quanto possível, com citações decoradas, preferivelmente. Os textos em latim eram As Catilinárias ou a Eneida, dos quais até hoje sei o comecinho.

Havia provas escritas e orais. A escrita já dava nervosismo, da oral muitos nunca se recuperaram inteiramente, pela vida afora. Tirava-se o ponto (sorteava-se o assunto) e partia-se para o martírio, insuperável por qualquer esporte radical desta juventude de hoje. A oral de latim era particularmente espetacular, porque se juntava uma multidão, para assistir à performance do saudoso mestre de Direito Romano Evandro Baltazar de Silveira. Franzino, sempre de colete e olhar vulpino (dicionário, dicionário), o mestre não perdoava.

— Traduza aí quousque tandem, Catilina, patientia nostra — dizia ele ao entanguido vestibulando.
— "Catilina, quanta paciência tens?" — retrucava o infeliz.

Era o bastante para o mestre se levantar, pôr as mãos sobre o estômago, olhar para a platéia como quem pede solidariedade e dar uma carreirinha em direção à porta da sala.

— Ai, minha barriga! — exclamava ele. — Deus, oh Deus, que fiz eu para ouvir tamanha asnice? Que pecados cometi, que ofensas Vos dirigi? Salvai essa alma de alimária. Senhor meu Pai!

Pode-se imaginar o resto do exame. Um amigo meu, que por sinal passou, chegou a enfiar, sem sentir, as unhas nas palmas das mãos, quando o mestre sentiu duas dores de barriga seguidas, na sua prova oral. Comigo, a coisa foi um pouco melhor, eu falava um latinzinho e ele me deu seis, nota do mais alto coturno em seu elenco.

O maior público das provas orais era o que já tinha ouvido falar alguma coisa do candidato e vinha vê-lo "dar um show". Eu dei show de português e inglês. O de português até que foi moleza, em certo sentido. O professor José Lima, de pé e tomando um cafezinho, me dirigiu as seguintes palavras aladas:

— Dou-lhe dez, se o senhor me disser qual é o sujeito da primeira oração do Hino Nacional!

— As margens plácidas — respondi instantaneamente e o mestre quase deixa cair a xícara.

— Por que não é indeterminado, "ouviram, etc."?

— Porque o "as" de "as margens plácidas" não é craseado. Quem ouviu foram as margens plácidas. É uma anástrofe, entre as muitas que existem no hino. "Nem teme quem te adora a própria morte": sujeito: "quem te adora." Se pusermos na ordem direta...

— Chega! — berrou ele. — Dez! Vá para a glória! A Bahia será sempre a Bahia!

Quis o irônico destino, uns anos mais tarde, que eu fosse professor da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia e me designassem para a banca de português, com prova oral e tudo. Eu tinha fama de professor carrasco, que até hoje considero injustíssima, e ficava muito incomodado com aqueles rapazes e moças pálidos e trêmulos diante de mim. Uma bela vez, chegou um sem o menor sinal de nervosismo, muito elegante, paletó, gravata e abotoaduras vistosas. A prova oral era bestíssima. Mandava-se o candidato ler umas dez linhas em voz alta (sim, porque alguns não sabiam ler) e depois se perguntava o que queria dizer uma palavra trivial ou outra, qual era o plural de outra e assim por diante. Esse mal sabia ler, mas não perdia a pose. Não acertou a responder nada. Então, eu, carrasco fictício, peguei no texto uma frase em que a palavra "for" tanto podia ser do verbo "ser" quanto do verbo "ir". Pronto, pensei. Se ele distinguir qual é o verbo, considero-o um gênio, dou quatro, ele passa e seja o que Deus quiser.

— Esse "for" aí, que verbo é esse?

Ele considerou a frase longamente, como se eu estivesse pedindo que resolvesse a quadratura do círculo, depois ajeitou as abotoaduras e me encarou sorridente.

— Verbo for.

— Verbo o quê?
— Verbo for.
— Conjugue aí o presente do indicativo desse verbo.
— Eu fonho, tu fões, ele fõe - recitou ele, impávido. — Nós fomos, vós fondes, eles fõem.
Não, dessa vez ele não passou. Mas, se perseverou, deve ter acabado passando e hoje há de estar num posto qualquer do Ministério da Administração ou na equipe econômica, ou ainda aposentado como marajá, ou as três coisas. Vestibular, no meu tempo, era muito mais divertido do que hoje e, nos dias que correm, devidamente diplomado, ele deve estar fondo para quebrar. Fões tu? Com quase toda a certeza, não. Eu tampouco fonho. Mas ele fõe.

Esta crônica foi publicada no jornal "O Globo" (e em outros jornais) na edição de domingo, 13 de setembro de 1998 e integra o livro "O Conselheiro Come", Ed Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 2000, pág. 20.

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De blog para blog. Esse texto foi compartilhado pela Stella Maris no endereço:  

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Uma defesa do "erro" de português - Hélio Schwartsman

Este é outro texto sobre a polêmica do livro do MEC, que merece ser lido.
Gostei muito. Espero que gostem.
Grande abraço
Tânia




Uma defesa do "erro" de português - Hélio schwartsman

 
O pessoal pegaram pesado. Da esquerda à direita, passando por vários amigos meus, a imprensa foi unânime em atacar o livro didático "Por uma Vida Melhor", de Heloísa Ramos. O suposto pecado da obra, que é distribuída pelo Programa do Livro Didático, do Ministério da Educação, é afirmar que construções do tipo "nós pega o peixe" ou "os livro ilustrado mais interessante estão emprestado" não constituem exatamente erros, sendo mais bem descritas como "inadequadas" em determinados "contextos".

Os mais espevitados já viram aí um plano maligno do governo do PT para pespegar a anarquia linguística e destruir a educação, pondo todas as crianças do Brasil para falar igualzinho ao Lula. Outros, mais comedidos, apontaram a temeridade pedagógica de dizer a um aluno que ignorar a concordância não constitui erro.

Eu mesmo faria coro aos moderados, não fosse o fato de que, do ponto de vista da linguística --e não o da pedagogia ou da gramática normativa--, a posição da professora Heloísa Ramos é corretíssima, ainda que a autora possa ter sido inábil ao expô-la.
Acredito mesmo que, excluídos os ataques politicamente motivados, tudo não passa de um grande mal-entendido. Para tentar compreender melhor o que está por trás dessa confusão, é importante ressaltar a diferença entre a perspectiva da linguística, ciência que tem por objeto a linguagem humana em seus múltiplos aspectos, e a da gramática normativa, que arrola as regras estilísticas abonadas por um determinado grupo de usuários do idioma numa determinada época (as elites brancas de olhos azuis, se é lícito utilizar a imagem consagrada pelo ex-governador de São Paulo Claúdio Lembo). Podemos dizer que a segunda está para a primeira assim como a pesquisa da etiqueta da corte bizantina está para o estudo da História. Daí não decorre, é claro, que devamos deixar de examinar a etiqueta ou ignorar suas prescrições, em especial se frequentarmos a corte do "basileus", mas é importante ter em mente que a diferença de escopo impõe duas lógicas muito diferentes.

Se, na visão da gramática normativa, deixar de fazer uma flexão plural ou apor uma vírgula entre o sujeito e o predicado constituem crimes inafiançáveis, na perspectiva da linguística nada disso faz muito sentido. Mas prossigamos com um pouco mais de vagar. Se os linguistas não lidam com concordâncias e ortografia o que eles fazem? Seria temerário responder por todo um ramo do saber que ainda por cima se divide em várias escolas rivais. Mas, assumindo o ônus de favorecer uma dessas correntes, eu diria que a linguística está preocupada em apontar os princípios gramaticais comuns a todos os idiomas. Essa ideia não é exatamente nova. Ela existe pelo menos desde Roger Bacon (c. 1214 - 1294), o "pai" do empirismo e "avô" do método científico, mas foi modernamente desenvolvida e popularizada pelo linguista norte-americano Noam Chomsky (1928 -).

Há de fato boas evidências em favor da tese. A mais forte delas é o fato de que a linguagem é um universal humano. Não há povo sobre a terra que não tenha desenvolvido uma, diferentemente da escrita, que foi "criada" de forma independente não mais do que meia dúzia de vezes em toda a história da humanidade. Também diferentemente da escrita, que precisa ser ensinada, basta colocar uma criança em contato com um idioma para que ela o adquira quase sozinha. Mais até, o fenômeno das línguas crioulas mostra que pessoas expostas a pídgins (jargões comerciais normalmente falados em portos e que misturam vários idiomas) acabam desenvolvendo, no espaço de uma geração, uma gramática completa para essa nova linguagem. Outra prova curiosa é a constatação de que bebês surdos-mudos "balbuciam" com as mãos exatamente como o fazem com a voz as crianças falantes.

O principal argumento lógico usado por Chomsky em favor do inatismo linguístico é o chamado Pots, sigla inglesa para "pobreza do estímulo" ("poverty of the stimulus"). Em grandes linhas, ele reza que as línguas naturais apresentam padrões que não poderiam ser aprendidos apenas por exemplos positivos, isto é, pelas sentenças "corretas" às quais as crianças são expostas. Para adquirir o domínio sobre o idioma elas teriam também de ser apresentadas a contraexemplos, ou seja, a frases sem sentido gramatical, o que raramente ocorre. Como é fato que os pequeninos desenvolvem a fala praticamente sozinhos, Chomsky conclui que já nascem com uma capacidade inata para o aprendizado linguístico. É a tal da Gramática Universal.

O cientista cognitivo Steven Pinker, ele próprio um ferrenho defensor do inatismo, extrai algumas consequências interessantes da teoria. Para começar, ele afirma que o instinto da linguagem é uma capacidade única dos seres humanos. Todas as tentativas de colocar outros animais, em especial os grandes primatas, para "falar" seja através de sinais ou de teclados de computador fracassaram. Os bichos não desenvolveram competência para, a partir de um número limitado de regras, gerar uma quantidade em princípio infinita de sentenças. Para Pinker, a linguagem (definida nos termos acima) é uma resposta única da evolução para o problema específico da comunicação entre caçadores-coletores humanos.

Outro ponto importante e que é o que nos interessa aqui diz respeito ao domínio da gramática. Se ela é inata e todos a possuímos como um item de fábrica, não faz muito sentido classificar como "pobre" a sintaxe alheia. Na verdade, aquilo que nos habituamos a chamar de gramática, isto é, as prescrições estilísticas que aprendemos na escola são o que há de menos essencial, para não dizer aborrecido, no complexo fenômeno da linguagem. Não me parece exagero afirmar que sua função é precipuamente social, isto é, distinguir dentre aqueles que dominam ou não um conjunto de normas mais ou menos arbitrárias que se convencionou chamar de culta. Nada contra o registro formal, do qual, aliás, tiro meu ganha-pão. Mas, sob esse prisma, não faz mesmo tanta diferença dizer "nós vai" ou "nós vamos". Se a linguagem é a resposta evolucionária à necessidade de comunicação entre humanos, o único critério possível para julgar entre o linguisticamente certo e o errado é a compreensão ou não da mensagem transmitida. Uma frase ambígua seria mais "errada" do que uma que ferisse as caprichosas regras de colocação pronominal, por exemplo.

Podemos ir ainda mais longe e, como o linguista Derek Bickerton (1925 -), postular que existem situações em que é a gramática normativa que está "errada". Isso ocorre quando as regras estilísticas contrariam as normas inatas que nos são acessíveis através das gramáticas das línguas crioulas. No final acabamos nos acostumando e seguimos os prescricionistas, mas penamos um pouco na hora de aprender. Estruturas em que as crianças "erram" com maior frequência (verbos irregulares, dupla negação etc.) são muito provavelmente pontos em que estilo e conexões neuronais estão em desacordo.

Mais ainda, elidir flexões, substituindo-as por outros marcadores, como artigos, posição na frase etc., é um fenômeno arquiconhecido da evolução linguística. Foi, aliás, através dele que os cidadãos romanos das províncias foram deixando de dizer as declinações do latim clássico, num processo que acabou resultando no português e em todas as demais línguas românicas.

A depender do zelo idiomático de meus colegas da imprensa, ainda estaríamos todos falando o mais castiço protoindo-europeu.

Não sei se algum professor da rede pública aproveita o livro de Heloísa Ramos para levar os alunos a refletir sobre a linguagem, mas me parece uma covardia privá-los dessa possibilidade apenas para preservar nossas arbitrárias categorias de certo e errado.

Hélio Schwartsman, 44 anos, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha.com.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/916634-uma-defesa-do-erro-de-portugues.shtml 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O texto de Elaine Brum sobre 'os livro' do MEC


Participei na sexta-feira passada de um debate na Rádio UEM sobre a polêmica dos 'livro do MEC'. Eu estava agitadinha e acanhada no início, mas depois peguei o embalo e adorei a experiência. 

Nós, professores de português e linguística nos Cursos de Letras, costumamos apontar quando a mídia trata o assunto 'língua portuguesa' de maneira retrógrada. Entendo que mostrar o que é abordado de forma coerente pela é igualmente importante. Por isso, reproduzo aqui o texto de Elaine Brum. 

Para mim, o texto dela e o de um jornalista da Folha de S. Paulo (depois reproduzo) evidenciam que já há uma compreensão melhor dos fenômenos na língua por parte desses profissionais. Resta torcer para que o paradigma rançoso de outrora seja substituído por essa visão muito mais condizente com a língua e seus fatos.   
Analisem: 
O que “os livro” contam?
Algumas dúvidas sobre a polêmica do livro didático

ELIANE BRUM

Li o capítulo do livro “Por uma vida melhor”, que vem causando polêmica há mais de uma semana na imprensa e na comunidade acadêmica. O livro é distribuído pelo Ministério da Educação para ser utilizado pelas escolas públicas na Educação de Jovens e Adultos e foi coordenado pela Ação Educativa – ONG pela qual tenho grande respeito pelo trabalho que realiza no reconhecimento e ampliação das vozes da cultura, especialmente a das periferias. Copio o trecho da discórdia aqui – e sugiro que o leitor leia o capítulo inteiro, intitulado “Falar é diferente de escrever”. É importante ler o texto na fonte para que possamos pensar juntos e para que cada um possa formar sua própria opinião.
O trecho que gerou a polêmica é este:
 “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado.
Você acha que o autor dessa frase se refere a um livro ou a mais de um livro? Vejamos:
O fato de haver a palavra os (plural) indica que se trata de mais de um livro. Na variedade popular, basta que esse primeiro termo esteja no plural para indicar mais de um referente. Reescrevendo a frase no padrão da norma culta, teremos:
 Os livros ilustrados mais interessantes estão emprestados.
Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar ‘os livro?’. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião.”
Ao ler o capítulo inteiro, é fácil perceber que, em nenhum momento, os autores do livro afirmam que não se deve ensinar e aprender a “norma culta” da língua. Pelo contrário. Eles se dedicam a ensiná-la. Logo na primeira página, é dito: “Você, que é falante nativo de português, aprendeu sua língua materna espontaneamente, ouvindo os adultos falarem ao seu redor. O aprendizado da língua escrita, porém, não foi assim, pois exige um aprendizado formal. Ele ocorre intencionalmente: alguém se dispõe a ensinar e alguém se dispõe a aprender”. Mais adiante, os autores estimulam o aluno a ler e a escrever – e a insistir nisso, mesmo que possa parecer difícil, porque é lendo e escrevendo que se aprende a ler e a escrever.
Não há, portanto, nenhum complô contra a língua portuguesa, como algumas intervenções fizeram parecer. Nem mesmo caberia tanto barulho, não fosse uma ótima oportunidade para pensarmos sobre a língua. E o debate das ideias sempre vale a pena. É mais interessante, porém, quando partimos das dúvidas – e não das certezas. Não custa perguntar uma vez por dia a si mesmo: “Será que eu estou certo?”. Ninguém está velho demais, ou sábio demais, ou tem diplomas demais que não possa duvidar e aprender. Um professor que pensa que sabe tudo não é um professor – é um dogma. E dogmas cabem nas religiões e nas ditaduras – e não na escola e na democracia.
Há algumas afirmações no texto que, em minha opinião, merecem uma reflexão mais atenta. E o trecho de “Os livro” é apenas uma delas. Em outro momento, os autores dizem o seguinte:
“Em primeiro lugar, não há um único jeito de falar e escrever. A língua portuguesa apresenta muitas variantes, ou seja, pode se manifestar de diferentes formas. Há variantes regionais, próprias de cada região do país. (...) Essas variantes também podem ser de origem social. As classes sociais menos escolarizadas usam uma variante da língua diferente da usada pelas classes sociais que têm mais escolarização. Por uma questão de prestígio — vale lembrar que a língua é um instrumento de poder —, essa segunda variante é chamada de variedade culta ou norma culta, enquanto a primeira é denominada variedade popular ou norma popular. Contudo, é importante saber o seguinte: as duas variantes são eficientes como meios de comunicação. A classe dominante utiliza a norma culta principalmente por ter maior acesso à escolaridade e por seu uso ser um sinal de prestígio. Nesse sentido, é comum que se atribua um preconceito social em relação à variante popular, usada pela maioria dos brasileiros. Esse preconceito não é de razão linguística, mas social. Por isso, um falante deve dominar as diversas variantes porque cada uma tem seu lugar na comunicação cotidiana”.
É verdade que a língua pode ser um instrumento de dominação – e foi ao longo da História não só do Brasil, mas do mundo. O português mesmo é a língua dos colonizadores – e foi sendo transformado por falantes vindos de geografias e de experiências diversas ao longo dos séculos, num constante movimento. Assim como a apropriação da palavra escrita e a ampliação do acesso à escola estão na base de qualquer processo igualitário. Também é verdade que os pobres sempre foram discriminados por tropeçarem nas palavras e na concordância. Basta lembrar as piadas que faziam com Lula porque no início de sua carreira política ele falava “menas” – em vez de menos. A solução para a discriminação, sempre uma indignidade, não foi afirmar que “menas” também era correto.
O que discordo no capítulo polêmico é exatamente o caminho que o livro propõe para a inclusão. Primeiro, acho complicado afirmar que usar “a norma culta” ou a “norma popular” é uma questão de ocasião. Como neste trecho: “A norma culta existe tanto na linguagem escrita como na linguagem oral, ou seja, quando escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais, porém, quando escrevemos um requerimento, por exemplo, devemos ser formais, utilizando a norma culta”.
Aceitar que está correto dizer “Os livro” – ou que basta aprender onde cabe a “norma popular” e onde é mais apropriada a “culta” – pode significar aceitar a dominação e acolher o preconceito. Quem fala e escreve “os livro” o faz não por escolha, mas porque lhe foi roubado o acesso à educação. É verdade que quem assim se expressa supostamente comunica o mesmo que quem respeita a concordância. E o objetivo maior da língua é permitir a comunicação. Mas, se você afirma que a concordância ou não é apenas uma questão de ocasião, você corre o risco de estar acolhendo a discriminação – e não incluindo de fato.

A inclusão real só vai acontecer quando a escola pública oferecer a mesma qualidade de ensino recebida pelos mais ricos nas melhores escolas privadas. Quando o Estado for capaz de garantir a mesma base de conhecimento para que cada um desenvolva suas potencialidades. E este é o problema do país: uma educação pública de péssima qualidade, com adolescentes que chegam ao ensino médio sem condições de interpretar um texto – e muitas vezes incapazes até mesmo de ler um texto.
O que os mais pobres precisam não é que alguém lhes diga que expressões como “os livro” é bom português, mas sim uma escola que ensine de fato – e não que finja ser capaz de ensinar. Para dizer “os livro” ninguém precisa de escola. É óbvio que a língua, como coisa viva que é, também é política. Mas a política de inclusão contida no texto do livro pode estar equivocada. E a discussão sobre o tema, seja de um lado ou de outro, poderia ser mais interessante se fosse menos sobre política – e mais sobre educação.
Dominar as regras é importante até para poder quebrá-las. É preciso conhecer profundamente a origem, a estrutura da língua, para poder brincar com ela. Você precisa partir do parâmetro para reinventá-lo na escrita. Quando o personagem de um romance que se passa na periferia de uma grande cidade diz “Os livro”, seu autor sabe que a concordância correta é “os livros”. Quando ele escolhe colocar essa construção na boca do personagem, há uma intenção literária. Ele está nos dizendo algo muito mais profundo do que uma mera equivalência poderia sugerir. Se você elimina essa possibilidade, pode estar eliminando a denúncia da dominação ou a possibilidade do estranhamento. (Ao final do capítulo polêmico, aliás, há um texto bem interessante sobre a visão de mundo contida na escolha da linguagem escrita, desenvolvido a partir do poema “Migna terra”, de Juó Bananére.)
Quando alguém é discriminado por dizer “Os livro” não me parece ser “um preconceito linguístico”, como os autores afirmam, mas um preconceito. Ponto. Ninguém tem o direito de zombar de outro porque ele não conhece as regras gramaticais – ao contrário, deve ajudá-lo a encontrar os meios de aprender. E é nesse ponto que me parece que pode existir também um equívoco na compreensão do que é a linguagem popular.
Não sou linguista, nem gramática, nem professora de português. Estou sempre estudando para não cometer erros ao escrever, mais ainda agora com a nova ortografia. Mas, mesmo com a gramática e o dicionário já bem gastos pelo uso, às vezes me acontece de atropelar a língua. Acho, porém, que entendo um pouco da linguagem das ruas. E nisso tenho algo a dizer.
Percorro o Brasil há mais de 20 anos ouvindo histórias de gente – e muitos dos que escutei eram analfabetos. Sempre defendo que a principal ferramenta do repórter é a escuta. E é justamente esta escuta que me ensinou que a linguagem popular é muito variada – e muito, muito sofisticada mesmo. Seguidas vezes, meu desafio é apenas escutar com redobrada atenção para reproduzir pela escrita o que foi inventado pela fala. Porque há uma recriação de mundo em cada canto, contida nas pessoas a partir de experiências as mais diversas. É essa sofisticação da linguagem que me abre as portas para o universo que me propus a contar.
Com frequência eu penso, diante de um analfabeto nos confins do Brasil: “Nossa! Isso é literatura pela boca!”. E é. Guimarães Rosa não reinventou a língua portuguesa apenas porque era um gênio. Acredito que era um gênio – mas acredito também que ele bebeu em genialidades orais do sertão do qual se apropriou como poucos.
Então, acreditar que a linguagem popular (ou “variante popular” ou “norma popular”) é dizer coisas toscas como “os livro” pode significar subestimar a riqueza e a diversidade de expressão do povo. Sempre lamentei que as pessoas que me contavam suas histórias não tivessem tido acesso à escola, devido à abissal desigualdade do Brasil, para que não precisassem de mim para transformar em escrita as belas construções, os achados de linguagem que saíam de sua boca.
Nada a ver com “os livro”. Posso estar errada, mas me arrisco a afirmar que o povo brasileiro é muito melhor do que isso. Se o Estado algum dia garantir escola pública de qualidade e professores qualificados, bem pagos e dispostos a ensinar, o português será uma língua muito mais rica também na expressão escrita – como já é na oral. 
(Eliane Brum escreve às segundas-feiras.)
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI235334-15230,00.html
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Portanto, esse texto foi para mostrar que a mídia não está em uníssono.
Grande abraço
Tânia


 

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Cansei de ser professor - 1994

Hoje, trago uma digitalização de um texto bem antigo, publicado na revista Veja em 1994. Texto quase maior de idade, mas que nos permite uma certa perspectiva. 
Qualquer semelhança com o que fala Amanda Gurgel ou qualquer semelhança com a realidade, é mera coincidência.   

Uma ótima semana.
Tânia

domingo, 22 de maio de 2011

O bloguitcho do Reinaldo Azevedo me censurou, ôh dô de mim


Estava lendo mais um texto sobre o tal livro didático e me deu vontade de opinar. Detalhe: A Veja me censurou, haha.

Olha, dentre todos os textos ruins sobre o assunto, este bateu o recorde: 
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/livro-didatico-faz-a-apologia-do-erro-exponho-a-essencia-da-picaretagem-teorica-e-da-malvadeza-dessa-gente/ 

Eu acho que não disse nada demais. Mas não colocam minha mensagem. Será que ofendi alguém? rsrs. Analise você mesmo:

Olá Reinaldo,


estou aqui pensando em suas palavras... "Não quero usar o exemplo pessoal. Mas sei de gente que se livrou da pobreza extrema apenas porque conseguia dominar determinados códigos de uma cultura que não seria própria àquela faixa de renda". Você fala de si? Meus parabéns!!
Eu fico impressionada como a mídia - de uma forma geral e incluindo você agora - defende a ideia de que "quem sabe língua portuguesa (= gramática) tem ascensão social".

Meu amigo, o único gramático rico do qual tenho conhecimento é o Professor Pasquale. O mesmo que vocês consultam quando têm dúvidas. O mesmo que o Diogo Mainardi disse pensar que nenhum brasileiro completou a 7ª série, por ensinar suas regras básicas de português. 


Quando o Pasquale vende seus encartes de língua portuguesa básica, esse sim, está prestando um grande serviço à língua, uma vez que eles acompanham diversos jornais e revistas, não?
Pelo que entendo o que propicia ascensão social é trabalho, muito trabalho e talento. Prova disso é que jogadores de futebol ficam riquíssimos e continuam com a linguagem do grupo social a que pertencem, enquanto dão entrevistas com seu português 'quebrado' e são zombados pela elite. Cobrados que falem adequadamente 'té mesmo in ingrish'. 

Sinto muito te dizer: mas você precisa escrever sobre coisas e assuntos de seu domínio. Se for escrever sobre assuntos de língua portuguesa como ela é, comece por Saussure, leia Chomski, leia os dialetologistas todos que publicaram estudos que descrevem a nossa língua de norte a sul. Leia Antenor Nascentes. Veja os Atlas Linguísticos que foram publicados. Depois disso, você volta a escrever sobre os domínios alheios. Que tal?

Magoei o moderador, aeeee.
Bjs pessoal e vamos estudar que faz bem para pele, haha.
Uma ótima semana para todos.
Tânia
 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

DISCUSSÃO SOBRE LIVRO DIDÁTICO SÓ REVELA IGNORÂNCIA DA GRANDE IMPRENSA - Marcos Bagno


E então a mídia conseguiu conseguiu reacender a velha polêmica?

Essa conversa toda trazida pelo livro 'problemático' do MEC, de linguística versus gramática, é bastante velha. Eu analisei, em dissertação de mestrado, as reportagens sobre a língua portuguesa publicadas pela revista Veja e o debate já vinha de longa data naquela época.

Os jornalistas não leem nadinha de linguística, não entendem que a linguística descreve exaustivamente os fatos da língua, com base em amplo corpora oral e escrito, e tenta explicá-los. O que eles fazem é como se quisessem saber mais que o astrônomo que explica os movimentos do universo. Como se dissessem: que absurdo que a terra gira em torno do sol!

O pior é saber que passada essa discussão, com o tempo outra virá. Com certeza.

Vejamos o que Marcos Bagno, autor do livro Preconceito Linguístico, tantas vezes lido na nossa área, tem a dizer sobre isso.
Uma ótima quinta.
Tânia


POLÊMICA OU IGNORÂNCIA?



DISCUSSÃO SOBRE LIVRO DIDÁTICO SÓ REVELA IGNORÂNCIA DA GRANDE IMPRENSA


Marcos Bagno, Universidade de Brasília






Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.

Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia página e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos doque eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentementeconvencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).

Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.

Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana. Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro, com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela – devidamente fossilizada e conservada em formol – que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.

Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro do conjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.

A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.

Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).

Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa não significa automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.

Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).

O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em quea defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?